A gigante do fast fashion agora é dona da grife que pregava transparência radical. Bastaram 90 milhões em dívidas para o discurso verde ruir.
Por Mike Nelson ( Redação Santa Cruz do Capibaribe PE)
Com informações do Puck News e apuração própria do mercado de moda brasileiro
Era para ser o casamento perfeito entre propósito e lucro. A Everlane, grife norte-americana que conquistou os armários mais descolados do planeta com o mantra “transparência radical” e “moda ética”, agora pertence à Shein – a gigante chinesa do fast fashion que produz mais poluição em um dia do que a Everlane em um ano.
O negócio foi aprovado no último sábado (16 de maio de 2026) e anunciado ao mercado na sexta-feira (22). Valor da transação: US 90 milhões referem-se a dívidas.
Ou seja: a Everlane não foi comprada pelo seu suposto valor sustentável. Foi comprada porque devia – e a Shein topou pagar a conta em troca de um selo verde para chamar de seu.
No Brasil, a Shein já é a segunda maior plataforma de moda do país, atrás apenas da Magazine Luiza, segundo dados recentes do setor. Com a aquisição da Everlane, a empresa chinesa ganha um ativo valioso: legitimidade para falar de sustentabilidade em um mercado que começa a regulamentar práticas ambientais.
Mas calma. A Everlane nunca foi tão sustentável quanto dizia. A marca já foi processada nos EUA por mentir sobre o uso de poliéster reciclado. Teve funcionários denunciando salários baixos em fábricas supostamente “éticas”. E agora seu destino está nas mãos da empresa que popularizou o ultra fast fashion – peças de R$ 30 que duram três lavagens.
Isso não é sustentabilidade. É maquiagem verde de luxo.
A Everlane estava sob controle majoritário da L Catterton, fundo de private equity apoiado pelo conglomerado de luxo LVMH (dona da Louis Vuitton, Dior e Givenchy). Ou seja: o mesmo grupo que vende bolsas de R$ 30 mil também apostou numa grife “consciente” – e agora a vendeu para a maior vilã ambiental da indústria.
Para o mercado financeiro, a operação é simples: a L Catterton não conseguiu transformar a Everlane em lucro real. Os acionistas com ações ordinárias ficarão com nada. Zero. Nem um centavo. Os preferenciais podem receber ações da Shein – que, convenhamos, não é exatamente um ativo de prestígio.
Nosso país é um dos maiores consumidores de moda do mundo e também um dos que mais sofre com os impactos do fast fashion: montes de roupa descartadas em aterros, trabalho análogo à escravidão na cadeia têxtil e um discurso de “moda sustentável” que virou produto de marketing.
A Shein já opera no Brasil com forte apelo de preço baixo e entrega rápida. Agora, com a Everlane no bolso, poderá lançar coleções com selo “verde” – e o consumidor desatento vai achar que está ajudando o planeta.
Não está.
Nós não vamos pedir que você pare de comprar. Mas vamos sugerir que você desconfie de qualquer marca que se venda como sustentável sem mostrar números auditados.
Pergunte: onde foi feita a roupa?
Exija: relatórios ambientais públicos.
Desconfie de: discurso bonito sem ação real.
A Everlane foi vendida por dívida, não por propósito. E a Shein não virou santa da noite para o dia. A moda sustentável de verdade é aquela que você usa por anos, conserta, troca, repassa – não a que vem com etiqueta de “transparência radical” e acaba num galpão da Shein.
O negócio Shein + Everlane é o maior símbolo do greenwashing da década. Mostra que, no capitalismo da moda, até a roupa “consciente” tem preço – e ele é sempre mais baixo do que a ética que diz defender.
Fique de olho. E continue lendo a TV Moda Center. A gente não vende discurso. A gente investiga.